PERSONALIDADE DO ANO - Tatiana Sampaio

  

12ª EDIÇÃO 2026


Polilaminina: o impacto do ajuste fiscal na Ciência

Cortes nos orçamentos de universidades impossibilitaram a patente em tecnologia desenvolvida no Brasil. Caso abre debate sobre a quem serve esse mecanismo e quais barreiras impossibilitam a ciência do sul global alcançá-lo também

Em entrevista concedida há 3 semanas, a bióloga e pesquisadora Tatiana Sampaio, chefe do laboratório da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) que desenvolveu a polilaminina, afirmou que o Brasil perdeu a patente internacional da molécula por falta de verba para arcar com os custos de sua manutenção. 

No último período, a polilaminina se tornou objeto de crescente atenção pública, devido aos resultados preliminares aparentemente muito positivos de sua utilização para a recuperação dos movimentos de pessoas tetraplégicas.

Apesar disso, de acordo com a cientista carioca, “os recursos da UFRJ foram muito cortados, em particular na época de 2015 e 2016, e não havia dinheiro para pagar a patente internacional.”


O caso é ilustrativo dos danos causados pelas políticas econômicas de ajuste fiscal, que predominam no Brasil há pouco mais de uma década, à Ciência e Tecnologia – e, consequentemente, à soberania e ao desenvolvimento, bem como à Saúde, poderíamos dizer – do país.

Desde então, assim como muitas outras instituições públicas, a UFRJ segue em dificuldades sérias. Após o corte de recursos de 2015, ainda no governo de Dilma Rousseff, o orçamento da universidade seguiu em queda livre nas gestões de Michel Temer e Jair Bolsonaro, até 2021. Naquele ano, o orçamento discricionário da UFRJ foi igual ao de 2008, denunciou sua associação de docentes. Desde então, parou de cair, mas seu crescimento é claudicante, ameaçando o próprio funcionamento da instituição. 

O cenário levanta o questionamento: quantas descobertas e estudos de grande importância para o Brasil e a humanidade não estão sendo prejudicados neste momento pela penúria de recursos que segue atingindo a ciência brasileira?

Em outro aspecto, como Outra Saúde debate regularmente, o regime internacional de propriedade intelectual carrega em seu âmago graves injustiças. Surgido no contexto da criação da Organização Mundial do Comércio (OMC), ele não intenta recompensar a inovação – serve, na verdade, para transferir riqueza de todo o mundo para os países e empresas que possuem grande número de patentes, invariavelmente localizados no Norte global. Supostamente, as nações do Sul podem usufruir das mesmas proteções: mas para alcançá-las, a exemplo do caso da polilaminina, há barreiras. 

Em editorial conjunto, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e a Academia Brasileira de Ciências (ABC) reforçam que o caso da polilaminina “remete à dimensão estratégica da soberania sanitária e tecnológica”. “Em um cenário internacional de crescente competição por tecnologias em saúde, a capacidade nacional de desenvolver, proteger e validar soluções biomédicas torna-se um elemento central de autonomia científica e tecnológica”, completam as entidades.

Nesta segunda-feira (23), Tatiana Sampaio será entrevistada no programa Roda Viva, da TV Cultura. 



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